1983: Immanuel WALLERSTEIN: O capitalismo histórico
Introduçom
Na origem deste livro estivérom duas solicitaçons. A primeira surgiu no Outono de I980, quando Thierry Paquot me convidou a elaborar um pequeno livro para umha colecçom editada em Paris. Ele sugeriu-me "O Capitalismo" como tema. Manifestei-lhe a minha disponibilidade, mas dixem-lhe que preferia o tema do "Capitalismo Histórico".
Já muitos autores, marxistas e outros pensadores de esquerda, escrevêrom sobre o capitalismo, no entanto, na maioria das obras, encontro limitaçons de dous tipos. Certas obras circunscrevem-se a análises de tipo lógico-dedutivo: começam por definir o capitalismo na sua essência, para, em seguida, analisarem a sua evoluçom em diferentes épocas e lugares. Um segundo conjunto de textos centra-se nas supostas grandes transformaçons recentes do sistema capitalista, utilizando todo o passado como umha chapa mitologizada, contra a qual pode ser contrastada a realidade empírica do presente.
Na seqüência de todo o corpus da minha obra recente, pareceu-me relevante considerar o capitalismo como um sistema histórico, quer no plano da sua evoluçom história, quer no nível da sua realidade singular e concreta. Decidi entom descrever a realidade do capitalismo, e caracterizar de modo preciso tanto os seus aspectos transitórios como os inalteráveis (de modo a que se poda designar esta realidade com um único nome).
Como muitos outros, acredito que esta realidade é um todo integrado. Mas muitos daqueles que manifestam esta opiniom socorrem-se dos argumentos que lhes permitem atacar os oponentes polo seu alegado "economicismo" ou "idealismo" cultural, ou pola excessiva ênfase dada a factores políticos "voluntaristas". Tais críticas tendem geralmente, por ricochete, a cometer o pecado oposto daquele que elas próprias procuram suprimir. Por conseguinte, tentei apresentar a realidade do capitalismo como um todo integrado, abordando em seguida as suas manifestaçons concretas nas áreas económica, política e ideológico-cultural.
A segunda solicitaçom foi um convite do Departamento de Ciências Políticas da Universidade do Hawai, para dar umha série de palestras. Aproveitei a oportunidade para escrever este livro, com base naquelas palestras que decorreram na Primavera de 1982. A primeira versom dos três primeiros capítulos foi apresentada no Hawai, e estou grato à assistencia polos comentários e críticas entom feitas, as quais me permitírorn melhorar consideravelmente a sua apresentaçom.
Visando introduzir algumhas melhorias ao texto inicial, elaborei posteriormente o quarto capítulo. Durante as palestras, tinha tomado consciência de um problema de exposiçom: a enorme força subterránea da fé na inevitabilidade do progresso. Apercebim-me também de que esta fé viciava o nosso entendimento das alternativas históricas realmente viáveis. Decidim, pois, tratar esta questom directamente.
Finalmente, umha breve referência a Karl Marx. Ele foi umha figura proeminente da moderna história intelectual e política. Deixou-nos um enorme legado, conceptualmente rico e moralmente inspirador. Porém, a afirmaçom de Marx, segundo a qual ele próprio nom era marxista, deve ser interpretada literalmente, e nom como umha mera figura de retórica.
Contrariamente a muitos dos seus auto-proclamados discípulos, ele sabia que era um homem do século XIX, e que a sua visom estava inevitavelmente circunscrita a essa realidade social. Ao contrário de muitos, ele sabia que um modelo teórico só é compreensível e útil por oposiçom a outro modelo teórico alternativo que, implícita ou explicitamente, pretende refutar; e que é totalmente irrelevante por oposiçom a outros modelos, relativos a outros problemas, baseados noutras premissas. Ao contrário de muitos, ele sabia que na sua obra existia umha tensom (que, historicamente, nunca se verificou de facto) entre a exposiçom do capitalismo enquanto sistema consumado e a análise da realidade concreta e quotidiana do mundo capitalista.
Usemos pois os seus escritos da única forma sensata -como os de um camarada de luita que conheceu tanto quanto pudo conhecer.